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A nossa língua de todo dia, como o professor Pasquale.
Oi, professor. Boa tarde.
Tatiana, querida Boa tarde, Fernando Boa tarde ou vinte esboa tarde.
O Fernando me deixou essa missão, porque a dele é bem mais dura.
Foi ver como é que está o mundo, sabe como é?
Para avaliar, eu entro no ar ele sai.
É, acontece isso, porque ele também fica a mercer dos horários,
dos comentaristas do Sebele pelo mundo.
Mas vamos lá, bom, como eu disse, bem mais fácil a minha missão
em acessorar aqui o professor Pasquale do que eu Fernando
saber como é que está o mundo resolver essas coisas todas e tal.
A dúvida hoje do Valdejo, então.
Eu não gostaria de estar na pele dele, vamos lá.
Vem de vinhendo a dúvida do Valdejo Jordan,
que é fã do estúdio Sebele, e assim como do quadro do professor.
E ele tem uma dúvida sobre o modo de falar da filha dele
quando era pequena, ele diz, nós perguntávamos a ela.
Cadê o teu brinquedo?
E ela respondia sempre, eu não sei cadê.
Ai, que fofa.
O cadê entendemos que seja uma forma coloquial para onde está.
Porém, como ela estava aprendendo a falar, sempre respondia.
Eu não sei cadê.
É possível utilizar cadê na resposta, como ela fazia?
Se não for, vai ter que ser, que é bonitinho demais.
É linda a pergunta do nosso Valdejo, a questão da...
O comportamento da filha, a expressão da filha dele
quando era pequena, já deve ser grande pelo que a gente dedusa aqui.
Também é uma coisa muito interessante.
Agora, quando ele diz que o cadê, que ele sempre entendeu o cadê
como uma forma coloquial para onde está, não é exatamente isso.
Porque o cadê, como nós já dissemos aqui em outro boletinho,
com outro tom, com outro VES sobre o cadê,
o cadê é que é D.
Que é feito D.
Que é feito D que se reduz para que é D
e que vira KD.
E isso está adicionarizado.
KD numa palavra só com KD.
KD com circumflexo também existe a forma KD.
E existe a forma KD.
Que é simplesmente equivalente a KD, equivalente a KD, equivalente a KD.
E a gente normalmente usa isso
nas perguntas, nas interrogações.
E eu vou mostrar isso com dois auxílios.
O primeiro, eu não vou dizer o nome porque se não estrago tudo,
é uma composição de Jorge, bem, com ele mesmo,
a gravação é de 69 mil novecentos e 69,
um arranjo bonito do maestro Rogério do Prá.
Vamos ouvir um trecho dessa canção.
Vamos lá.
E aí que eu vou dedicar essa canção.
Eu não sei cadê teresa.
Pois é, nem eu.
Nós temos uma querida amiga, chamada Teresa Monteiro,
que demora meses para responder.
Então estou dedicando a ela.
Teresa, cadê você?
Muito bom.
Teresa, cadê você responda pelo amor de Deus?
Cadê teresa, ninguém sabe.
O Jorge, bem, sabe, é o nome da música.
É esse cadê teresa, que é feito de teresa, onde está a teresa.
E nós temos aí o que nós chamamos de pergunta direta.
O que é a pergunta direta?
E aquela que termina com ponto de rogação.
Por que você fez isso?
Onde você está?
Cadê teresa.
Essas perguntas que terminam com ponto de rogação são perguntas diretas.
Então a gente vai ver na canção, na monumental canção,
escuadros de Adriana Calcanyoto, com ela,
do Disco Senhas de 1992, é bonito de matar.
Vamos ouvir.
Você eu acordei.
Não tem ninguém ao lado.
Pelas anela do lado, pelas anela do carro.
Pelas anela, pelas anela, quem ela, quem ela.
E mesmo tudo em quadrado, é malto controle.
Eu ando pelo mundo.
E meus amigos cadê?
Me alegria meu cansaço.
Meu amor cadê você?
Eu acordei.
Não tem ninguém ao lado.
Pelas anela do carro, pelas anela do carro.
Pelas anela, pelas anela, quem ela, quem ela, quem ela.
Meu amor cadê você?
Essa canção é daquelas que a gente quer ouvir.
Eu amo também, viu.
Adriana, beijo pra você, beijo imenso pra você.
Então cadê você?
Que é de você?
Que é feito de você?
Novamente pergunta direta.
Isso a gente escreve com ponto de errogação.
Agora nessa linha, quando a gente diz assim,
eu não sei por que você fez isso.
Eu não sei por que você fez isso.
Como é que termina essa frase?
Termina com ponto final.
Mesmo assim, esse porque é separado.
Eu não sei por que você fez isso.
Existe aí aquilo que nós chamamos de pergunta indireta.
Não termina com ponto de errogação, mas não deixa de ser uma pergunta.
Eu não sei por que você fez isso.
Eu não sei por que razão você fez isso, porque motivo você fez isso.
Esse porque é separado.
Como é separado nas perguntas direitas?
Por que você fez isso?
Ponto de interrogação.
E aí essa coisa da pergunta indireta justifica o uso
que a nossa menina, ele não deu o nome da filha,
da filha do Valdeir, Jordan de Valinhos.
Valinhos ou vinheta, vinheta, vinheta.
São próximas.
Você dá desvizinha, mas é vinheta.
Isso, coladas.
E é isso que justifica o raciocínio da criança.
E não só da criança.
Eu nas minhas pesquisas achei um depoimento de uma assimora,
cujo nome eu não vou dizer, uma deputada das tantas
que fugiram pros Estados Unidos.
Tá lá.
E ela, quando foi presa, acusada de enriquecimento ilícito,
ela deu uma declaração dizendo tal e tal e tal.
Aí ela termina.
Não sei cadê esse enriquecimento ilícito.
Não sei cadê.
Esse enriquecimento ilígito.
Faz sentido, porque não sei cadê.
Não sei que é d, que é feito d, onde está esse enriquecimento ilícito.
Então faz sentido na linguagem sobretudo, na linguagem da criança.
Não sei cadê, ponto final.
Não sei o que é d, o que é feito d, é uma pergunta indireta.
Isso tem uso formal.
Não, tanto que quando a gente procura nos dicionários,
o cadê que aparece e os dicionários dizem que cadê,
que vale a que é d, que é d, que é d e tal e tal.
A primeira coisa que se diz é que esse cadê aparece nas perguntas,
nas interrogações.
Não se diz lá nas interrogações diretas ou indiretas.
Dice nas interrogações.
E esse cadê da nossa menina, filha do Valdir,
é uma pergunta indireta.
Eu não sei cadê, eu não sei que é d, eu não sei onde está e quem diz,
eu não sei onde está, indiretamente pergunta onde está, eu não sei.
Então, embora isso não tenha registro formal, não aparece nos textos formais.
A estrutura é perfeitamente factível de uma pergunta indireta das tantas
que a gente faz em português e em qualquer língua do mundo.
É aquela história do inglês, do I e do Bicós.
Para quem não sabe inglês, I, que se escreve com três letras,
W, H, Y quer dizer por quê?
E Bicós, que se escreve com B de bola, E de Europa, C de casa,
A de América, U de Uva, S de sapato, E de Europa,
também é por quê?
Só que o I é na pergunta e Bicós é na resposta.
O I é na pergunta direta ou indireta.
Eu não vou traduzir, por exemplo, você sabe por quê está fulando, fez isso?
Eu não sei por quê.
Esse porque em português é separado e em inglês ele virou I.
I don't know, I don't know, I don't know, por quê?
Porque separado pergunta indireta como se faz inglês com esse I,
que é usado na pergunta, seja direta, seja indireta.
Essas comparações com outras línguas são muito interessantes,
vale a pena fazê-las para a gente entender o mecanismo que está por trás disso.
Então querido valdir o moral da história assim na sua filha era e deve ser ainda muito inteligente.
Ela tinha um desenvolvimento linguístico muito interessante,
faz todo o sentido do mundo estruturalmente falando,
eu não sei cadê, eu não sei que é D, eu não sei que é feito D.
O cadê e o cadê e o cadê só aparecem no português informal.
A gente não vê isso em textos formas, em um texto técnico,
em um texto filosófico, em um texto jurídico, a gente não vai encontrar cadê o crescimento do Brasil.
A gente vai encontrar que é feito do crescimento do Brasil,
que é feito da moralidade em certas questões brasileiras e tal e tal.
Mas na linguagem informal, eu acho que faz sentido sim esse cadê do jeito que a menina usou,
do jeito que essa deputada fujona usou e do jeito que às vezes muita gente usa.
É isso. Muito bem, muito bem. Obrigada.
Obrigado.
Aí eu vou contar isso, acho que eu não vou aumentar.
Eu ia fazer...
Eu ia fazer uma piata no fim do quadro e perguntar, cadê Fernando?
Isso, ele chegou.
Cheguei.
Não, mas eu estava aqui acompanhando, abriu o dicionário,
fica D e é que tal mesmo que cadê.
É cadê um equipe?
Não, cara chegou aqui no fim e falou, mas é cadê o equipe?
Eu falei se eu tivesse chegado no começo da aula.
Quer de certo?
Quer de certo.
E se você clicar no cadê, ele vai dar a cadê. Você está no was?
Tu.
Ele vai dizer pra você que existe cadê, que existe cadê com o que de querer, como eu disse,
mas eu repito em sua menagem, porque I love you.
E...
Existe cadê e existe cadê.
E cadê.
E que é D.
E que é feito D.
Muito bem.
Beijo, professor, muito obrigado, até amanhã.
Ai, love you.
E esse you agora é plural, porque se dá nada do inglês e inglês,
e o é singular e a plural, esse you agora é plural.
Tá bom.
Beijo pra você.
Beijo amanhã.
Beijo.
Pasquale Cipro Neto - A Nossa Língua de Todo Dia



